terça-feira, 14 de maio de 2013


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1. A oração pública e comunitária do povo de Deus é com razão
considerada uma das principais funções da Igreja. Daí que, logo no
princípio, os batizados «eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à
união fraterna, à fração do pão e às orações» (At 2, 42). Da oração
unânime da comunidade cristã nos dão repetidos testemunhos os
Atos dos Apóstolos.1
Que também os fiéis se costumavam entregar à oração
individual em determinadas horas do dia, provam-no igualmente os
documentos da primitiva Igreja. Depois foi-se introduzindo muito
cedo, aqui e além, o costume de consagrar à oração comunitária
alguns tempos especiais, por exemplo, a última hora do dia, ao
entardecer, no momento em que se acendiam as luzes, e a primeira
hora da manhã, quando, ao despontar o astro do dia, a noite chega
ao seu termo.
Com o decorrer dos tempos, foram-se ainda santificando
pela oração comunitária outras horas, que os Padres viam insinuadas
na leitura dos Atos dos Apóstolos. Assim, os Atos falam-nos dos
discípulos reunidos [para a oração] à terceira hora;
² o Príncipe dos Apóstolos «sobe ao terraço da casa para orar, por volta da sexta
hora» (10, 9); «Pedro ... e João sobem ao templo, para a oração da
hora nona» (3, 1); «a meio da noite, Paulo e Silas, em oração,
entoavam louvores a Deus» (16, 25).
2. Estas orações, feitas em comunidade, foram-se progressivamente
organizando, até que vieram a constituir um ciclo horário bem
definido. Esta Liturgia das Horas, ou Ofício Divino, embora
enriquecida de leituras, é antes de mais oração de louvor e de
súplica: oração da Igreja, com Cristo e a Cristo.

I. A ORAÇÃO DE CRISTO
Cristo, Orante do Pai

3. Vindo ao mundo para comunicar aos homens a vida divina, o
Verbo que procede do Pai como esplendor da sua glória, «Sumo
Sacerdote da Nova e Eterna Aliança, Cristo Jesus, ao assumir a
natureza humana, introduz nesta terra de exílio o hino que
eternamente se canta no Céu».3
Desde aquele momento, ressoa no
coração de Cristo o louvor divino expresso em termos humanos de adoração, propiciação e intercessão. E tudo isto Ele apresenta ao Pai,
como Cabeça da nova humanidade, Mediador entre Deus e os
homens, em nome de todos, para benefício de todos.
4. O próprio Filho de Deus, que é «um com o Pai» (cf. Jo 10, 30) e
que, ao entrar no mundo, disse: «Eu venho, ó Deus, para cumprir a
tua vontade» (Hebr 10, 9; cf. Jo 6, 38), quis-nos deixar também
exemplos da sua oração. E assim é que os Evangelhos no-l’O
apresentam com muita frequência a orar: quando pelo Pai é revelada
a sua missão,4
antes de chamar os Apóstolos,5
quando bendiz a Deus
na multiplicação dos pães,6
no monte, aquando da sua
transfiguração,7
quando opera a cura do surdo-mudo 8
e ressuscita a
Lázaro,9
antes da confissão de Pedro,10 quando ensina os discípulos a
orar 11 ao regressarem os discípulos da sua missão,12 ao abençoar as
criancinhas,13 quando roga por Pedro.14
A sua atividade quotidiana vemo-la estreitamente ligada à
oração, como que nasce da oração;15 levanta-Se alta madrugada 16
ou fica pela noite além, até à quarta vigília,17 entregue à oração a
Deus.18
Temos, além disso, justos motivos para crer que tomava
parte nas orações que publicamente se faziam nas sinagogas, onde
«tinha por costume» 19 ir aos sábados, ou no templo, ao qual
chamava casa de coração,20 e bem assim nas orações que os
piedosos israelitas costumavam fazer diariamente em particular.
Recitava também às refeições as tradicionais «bênçãos» a Deus,
como expressamente vem narrado na multiplicação dos pães,21 na
última Ceia,22 na ceia de Emaús;23 e (na última Ceia) cantou os
salmos com os discípulos24
.
Até aos derradeiros momentos da sua vida — próximo já
da Paixão,25 na última Ceia,26 na agonia,27 na Cruz 28 — o Divino
Mestre apresenta-nos a oração como sendo a alma do seu ministério
messiânico e do termo pascal da sua vida. Assim, «nos dias da sua
vida mortal, apresentou orações e súplicas, entre clamores e
lágrimas, Àquele que O podia livrar da morte, e foi atendido pela sua
piedade» (Hebr 5, 7); e, mediante a oblação perfeita consumada na
ara da cruz, «realizou a perfeição definitiva daqueles que são
santificados» (Hebr 10, 14); finalmente, ressuscitado de entre os
mortos, continua sempre vivo a interceder por nós.29

II. ORAÇÃO DA IGREJA

Preceito da oração

5. Aquilo que Jesus fez, isso mesmo ordenou fizéssemos nós. «Orai»
— diz repetidas vezes — «rogai», «pedi»,30 «em meu nome».31 E até
nos deixou, na oração dominical, um modelo de oração.32 Inculca a
necessidade da oração,33 oração humilde,34 vigilante,35 perseverante e cheia de confiança na bondade do Pai,36 feita com pureza de
intenção, consentânea com a natureza de Deus.37
Os Apóstolos, por sua vez, apresentam-nos com
frequência, em suas Epístolas, fórmulas de oração, mormente de
louvor e ação de graças, e exortam-nos a orar no Espírito Santo,38
pela mediação de Cristo,39 ao Pai,40 com perseverança e
assiduidade;41 sublinham a eficácia da oração para alcançar a
santidade;42 exortam à oração de louvor,43 de ação de graças,44 de
súplica,45 de intercessão por todos os homens.46

A Igreja continuadora da oração de Cristo

6. Vindo o homem inteiramente de Deus, é seu dever reconhecer e
confessar a soberania do seu Criador. Assim o fizeram, através da
oração, os homens piedosos de todos os tempos.
Mas a oração dirigida a Deus tem de estar ligada a Cristo,
Senhor de todos os homens, único Mediador,47 o único por quem
temos acesso a Deus.48 Ele une a Si toda a comunidade dos
homens,49 e de tal forma que entre a oração de Cristo e a de toda a
humanidade existe uma estreita relação. Em Cristo, e só n’Ele, é que
a religião humana adquire valor salvífico e atinge o seu fim.
7. É totalmente peculiar e profunda a união que existe entre Cristo e
aqueles que, pelo sacramento da regeneração, Ele assume como
membros do seu Corpo que é a Igreja. Deste modo, partindo da
Cabeça, por todo o Corpo se difundem todas as riquezas pertencentes
ao Filho: a comunicação do Espírito, a verdade, a vida, a participação
na sua filiação divina, que se manifestava em toda a sua oração
enquanto viveu no meio de nós.
O sacerdócio de Cristo é também participado por todo o
Corpo da Igreja. Os batizados, mediante a regeneração e a unção do
Espírito Santo, são consagrados como casa espiritual e sacerdócio
santo;50 e por esta forma, ficam habilitados a exercer o culto da Nova
Aliança, culto este proveniente, não das nossas forças, mas dos
méritos e dom de Cristo.
«Nenhum dom poderia Deus ter feito aos homens mais
valioso do que este: ter-lhes dado por Cabeça o seu Verbo pelo qual
criou todas as coisas, e tê-los unido a Ele como membros seus; ter
feito com que Ele seja ao mesmo tempo Filho de Deus e Filho do
homem, um só Deus com o Pai e um só homem com os homens.
Deste modo, quando falamos a Deus na oração, não podemos
separar d’Ele o Filho; e, quando ora o Corpo do Filho, não pode
separar de Si mesmo a Cabeça. E assim, é Ele próprio, o Salvador
único do seu Corpo, Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, quem
ora por nós, ora em nós e a Ele nós adoramos. Ora por nós, como
nosso Sacerdote; ora em nós, como nossa Cabeça; a Ele oramos,
como nosso Deus. Reconheçamos, pois, n’Ele a nossa voz, e a voz
d’Ele em nós».51 E é nisto que assenta a dignidade da oração cristã: em
participar da piedade mesma do Filho Unigênito para com o Pai e
daquela oração que Ele, durante a sua vida cá na terra expressou por
palavras e continua agora, sem interrupção, em toda a Igreja e em
cada um dos seus membros, em nome
e para salvação de todo o gênero humano.

Ação do Espírito Santo

8. A unidade da Igreja orante é realizada pelo Espírito Santo, o
mesmo que está em Cristo,52 em toda a Igreja e em cada um dos
batizados. «É o próprio Espírito que vem em auxílio da nossa
fraqueza”; é Ele que «ora por nós com gemidos inefáveis» (Rom
8,26); é Ele mesmo, como Espírito do Filho, que infunde em nós «o
espírito da adoção filial, no qual clamamos: Abba, Pai» (Rom 8,15; cf.
Gal 4,6; 1 Cor 12,3; Ef 5,18; Jud 20). Nenhuma oração, portanto, se
pode fazer sem a ação do Espírito Santo, o qual, realizando a unidade
de toda a Igreja, conduz pelo Filho ao Pai.

Caráter comunitário da oração

9. O exemplo e o preceito do Senhor e dos Apóstolos, de orar
incessantemente, hão de considerar-se, não como regra puramente
legal, mas como um elemento que faz parte da mais íntima essência
da própria Igreja, enquanto esta é uma comunidade e deve
expressar, inclusive pela oração, a sua natureza comunitária. Daí
que, quando nos Atos dos Apóstolos se fala, pela primeira vez, da
comunidade dos fiéis, esta nos aparece reunida precisamente em
oração, «com as mulheres, com Maria, Mãe de Jesus, e seus irmãos”
(At 1,14). «A multidão dos crentes era um só coração e uma só
alma» (At 4,31); e esta unanimidade assentava na palavra de Deus,
na comunhão fraterna, na oração e na Eucaristia.53
É certo que a oração feita a sós no quarto, portas
fechadas,54 é necessária e recomendável,55 e não deixa nunca de ser
oração de um membro da Igreja, por Cristo, no Espírito Santo.
Todavia, a oração comunitária possui uma dignidade especial,
baseada nestas palavras de Cristo: «Onde estiverem dois ou três
reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18,20).

III. A LITURGIA DAS HORAS
Consagração do tempo

10. Cristo disse: «É preciso orar sempre, sem desfalecimento” (Lc
18,1). E a Igreja, seguindo fielmente esta recomendação, não cessa
nunca de orar, ao mesmo tempo que nos exorta com estas palavras:
«Por Ele (Jesus), ofereçamos continuamente a Deus o sacrifício de
louvor» (Hebr 13,15). Este preceito é cumprido, não apenas com a celebração da Eucaristia, mas também por outras formas, de modo
particular com a Liturgia das Horas.
Entre as demais ações litúrgicas, esta, segundo a antiga
tradição cristã, tem como característica peculiar a de consagrar todo
o ciclo do dia e da noite.56
11. Ora, uma vez que o fim da Liturgia das Horas é a santificação do
dia e de toda a atividade humana, a sua estrutura teve que ser
reformada, no sentido de repor cada uma das Horas, tanto quanto
possível, no seu tempo verdadeiro, tendo em conta o condicionalismo
da vida moderna.57
Por isso, «já para santificar realmente o dia, já para rezar
as próprias Horas com fruto espiritual, importa recitá-las no momento
próprio, quer dizer, naquele que mais se aproxime do tempo
verdadeiro correspondente a cada Hora canônica”.58

Relação entre a Liturgia das Horas e a Eucaristia

12. A Liturgia das Horas alarga aos diferentes momentos do dia 59 o
louvor e ação de graças, a memória dos mistérios da salvação, as
súplicas, o antegozo da glória celeste, contidos no mistério
eucarístico, «centro e vértice de toda a
vida da comunidade cristã».60
A própria celebração eucarística tem na Liturgia das Horas
a sua melhor preparação, porque esta suscita e nutre da melhor
maneira as disposições necessárias para uma frutuosa celebração da
Eucaristia, quais são a fé, a esperança, a caridade, a devoção, o
espírito de sacrifício.

Exercício da função sacerdotal de Cristo na Liturgia das Horas

13. «A obra da redenção e da perfeita glorificação de Deus» 61
realiza-a Cristo no Espírito Santo por meio da Igreja. E isto, não
somente na celebração da Eucaristia e na administração dos
Sacramentos, mas também, e dum modo primacial, na Liturgia das
Horas.62 Nela está Cristo presente, quando a assembléia está
reunida, quando é proclamada a palavra de Deus, quando «ora e
salmodia a Igreja».63

Santificação do homem

14. Na Liturgia das Horas, opera-se a santificação do homem64 e
presta-se culto a Deus, por forma a estabelecer uma espécie de
intercâmbio, um diálogo entre Deus e o homem: «Deus fala ao seu
povo, ... e o povo responde a Deus no canto e na oração».65
Aqueles que tomam parte na Liturgia das Horas podem
colher dela abundantíssimos frutos de santificação, em virtude da
palavra de Deus que nela ocupa lugar importantíssimo. Efetivamente, é da Escritura Sagrada que são tiradas as leituras; aos salmos se vão
buscar as palavras de Deus cantadas na sua presença; duma forte
inspiração bíblica estão repassadas todas as preces, orações e
cânticos.66
Não só quando se lê «aquilo que foi escrito para nossa
edificação» (Rom 15,4), mas também quando a Igreja ora e canta, é
alimentada a fé dos participantes e os seus corações elevam-se para
Deus, a fim de Lhe oferecerem a homenagem espiritual e d’Ele
receberem a graça em maior abundância.67

Louvor prestado a Deus, em união com a Igreja celeste

15. Na Liturgia das Horas, a Igreja exerce a função sacerdotal da sua
Cabeça, «oferecendo ininterruptamente 68 a Deus o sacrifício de
louvor, ou seja, o fruto dos lábios que glorificam o seu nome».69
Esta oração é «a voz da Esposa a falar ao Esposo, e
também, a oração que o próprio Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao
Pai”.70 Consequentemente, «todos os que assim rezam
desempenham, por um lado, o
ofício da própria Igreja, e, por outro, participam da excelsa honra da
Esposa de Cristo, enquanto estão, em nome da Igreja, diante do
trono de Deus, a cantar os divinos louvores ».71
16. Cantando os louvores de Deus nas Horas canônicas, a Igreja
associa-se àquele hino de louvor que por toda a eternidade é cantado
na celeste morada.72 Ao mesmo tempo antegoza as delícias daquele
celestial louvor que João nos descreve no Apocalipse e que ressoa
ininterruptamente diante do trono de Deus e do Cordeiro. Realiza-se
a nossa estreita união com a Igreja celeste, quando «concelebramos
em comum exultação os louvores da Divina Majestade, quando todos
os que fomos resgatados no sangue de Cristo, de todas as tribos,
línguas, povos e nações (cf. Ap 5, 9), congregados numa só Igreja,
engrandecemos a Deus, uno e trino, no mesmo cântico de louvor».73
Esta liturgia celeste, já os profetas a anteviram na vitória
do dia sem noite, da luz sem trevas: «Já não será o sol a tua luz
durante o dia, nem a claridade da lua será a tua luz durante a noite,
porque o Senhor será a tua luz eterna» (Is 60,19; cf. Ap 21,23.25).
«Será um dia contínuo, conhecido somente do Senhor, sem
alternância do dia e da noite; ao entardecer, brilhará a luz» (Zac
14,7). Ora, «a última fase dos tempos chegou já para nós (cf. 1 Cor
10,11); a restauração do mundo encontra-se irrevogavelmente
realizada e, em certo sentido, antecipada já no tempo presente».74
Pela fé somos instruídos acerca do sentido da própria vida temporal,
de tal modo que vivemos, com a criação inteira, na expectativa da
manifestação dos filhos de Deus.75 Na Liturgia das Horas,
proclamamos a nossa fé, exprimimos e fortalecemos a nossa
esperança, e tomamos parte já, de certo modo, na alegria do louvor
perene, do dia que não conhece ocaso.

Súplica e intercessão

17. Mas, na Liturgia das Horas, a par do louvor divino, a Igreja
expressa igualmente os votos e anseios de todos os cristãos; mais
ainda: roga a Cristo e, por Ele, ao Pai pela salvação do mundo
inteiro.76 E esta voz não é somente a voz da Igreja; é também a voz
de Cristo, uma vez que todas as orações são proferidas em nome de
Cristo – «por Nosso Senhor Jesus Cristo». Deste modo, a Igreja
prolonga aquelas preces e súplicas que o mesmo Cristo fazia nos dias
da sua vida mortal;77 daí, a sua particular eficácia. Não é, portanto,
somente pela caridade, pelo exemplo, pelas obras de penitência, mas
também pela oração, que a comunidade eclesial exerce uma
verdadeira maternidade para com as almas, no sentido de as
conduzir a Cristo.78
Isto diz respeito principalmente a todos aqueles que
receberam mandato especial de celebrar a Liturgia das Horas, isto é:
os bispos e presbíteros, que têm por dever de ofício orar pela grei
que lhes está confiada e por todo o povo de Deus,79 os outros
ministros sagrados e os religiosos.80

Ápice e fonte da atividade pastoral

18. Aqueles que tomam parte na Liturgia das Horas contribuem,
através duma misteriosa fecundidade apostólica, para o incremento
do povo de Deus.81 Efetivamente, o objetivo do trabalho apostólico é
conseguir que «todos aqueles que pela fé e pelo batismo se tornaram
filhos de Deus se reúnam em assembléia, louvem a Deus na Igreja,
participem no sacrifício, comam a Ceia do Senhor».82
Por esta forma, os fiéis exprimem na sua vida e
manifestam aos outros «o mistério de Cristo e a genuína natureza da
verdadeira Igreja, que tem como característica peculiar o ser ...
visível e dotada de riquezas invisíveis, ardorosa na ação e dedicada à
contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina».83
Por outro lado, as leituras e as preces da Liturgia das Horas
são fonte de vida cristã. Esta vida alimenta-se na mesa da Escritura
Sagrada e nas palavras dos Santos e robustece-se na oração. O
Senhor, sem o qual nada podemos fazer,84 quando O invocamos, dá
eficácia e incremento às nossas obras;85 e assim, dia após dia, vamos
sendo edificados como templo de Deus no Espírito,86 até atingirmos a
medida da idade perfeita de Cristo;87 ao mesmo tempo, vamos
robustecendo as nossas energias para podermos anunciar Cristo
àqueles que estão fora.88

Que a mente concorde com a voz

19. Para que esta oração seja própria de cada um daqueles que nela
tomam parte, seja fonte de piedade e da multiforme graça divina e sirva também de alimento à oração pessoal e à atividade apostólica,
importa celebrá-la com dignidade, atenção e devoção, e fazer com
que o espírito concorde com a voz.89 É necessário que todos
cooperem com a graça divina, para que não a recebam em vão.
Buscando a Cristo e esforçando-se por aprofundar o seu mistério na
oração,90 louvem a Deus e elevem as suas súplicas com o mesmo
espírito com que orava o Divino Salvador.

IV. QUEM CELEBRA A LITURGIA DAS HORAS

a) Celebração comunitária
20. A Liturgia das Horas, tal como as demais ações litúrgicas, não é
ação privada, mas pertence a todo o corpo da Igreja, manifesta-o e
afeta.91 O caráter eclesial da celebração aparece-nos com toda a sua
clareza – e, por isso mesmo, é sumamente recomendável – quando
realizada, com a presença do próprio Bispo rodeado dos seus
presbíteros e restantes ministros,92 por uma Igreja particular, «na
qual está presente e operante a Igreja de Cristo, una, santa, católica
e apostólica».93 Esta celebração, quando levada a efeito, mesmo sem
a presença do Bispo, por um cabido de cônegos ou por outros
presbíteros, far-se-á sempre atendendo à verdade das Horas e, tanto
quanto possível, com a participação do povo. O mesmo se diga dos
cabidos das colegiadas.
21. As outras assembleias de fiéis, entre as quais há que destacar as
paróquias como células da diocese, localmente constituídas sob a
presidência dum pastor como substituto do Bispo, e que «dalgum
modo representam a Igreja visível estabelecida por toda a terra»,94
celebrem as Horas principais, quanto possível, na igreja e em forma
comunitária.
22. Sempre que os fiéis são convocados e se reúnem para celebrar a
Liturgia das Horas, pela união das vozes e dos corações manifestam a
Igreja que celebra o mistério de Cristo.95
23. É função daqueles que receberam as ordens sacras ou foram
investidos dalguma especial missão canônica96 organizar e dirigir a
oração da comunidade. «Devem, por isso, esforçar-se para que todos
aqueles que estão entregues aos seus cuidados sejam unânimes na
oração».97 Procurarão convidar os fiéis e formá-los mediante uma
catequese adequada para a celebração comunitária das partes mais
importantes da Liturgia das Horas, mormente nos domingos e
festas.98 Hão-de ensiná-los a fazer desta participação uma oração
autêntica.99 Para isso, terão que os ajudar, através duma formação
apropriada, a penetrar no sentido cristão dos salmos, por forma a
serem levados, pouco a pouco, a saborear e utilizar mais amplamente
a oração da Igreja.100
24. As comunidades de cônegos, de monges, de monjas e de outros
religiosos, que, por força da Regra ou das Constituições, celebram
integral ou parcialmente a Liturgia dasHoras, quer segundo o rito
comum quer segundo o seu rito particular, representam a Igreja
orante dum modo muito especial. Estas comunidades reproduzem de
uma forma mais completa a imagem da Igreja a cantar
ininterruptamente, numa só voz, os louvores divinos; além disso,
cumprem também o dever de «trabalhar», antes de mais pela
oração, «para a edificação e crescimento de todo o Corpo Místico de
Cristo e para o bem das igrejas particulares».101 Isto se aplica de
modo especial aos que se entregam à vida contemplativa.
25. Os ministros sagrados e todos os clérigos não obrigados por outro
título à celebração comunitária, quando vivam em comunidade ou se
encontrem juntos, procurem celebrar em comum pelo menos
algumas das partes da Liturgia das Horas, mormente Laudes pela
manhã e Vésperas à tarde.102
26. Aos religiosos de ambos os sexos não obrigados à celebração
comunitária e aos membros de qualquer Instituto de perfeição,
recomenda-se encarecidamente que se reúnam em comum, ou entre
si ou juntamente com o povo, para celebrar a Liturgia das Horas ou
alguma parte da mesma.
27. Os grupos de leigos, onde quer que se encontrem reunidos, seja
qual for o motivo destas reuniões — oração, apostolado ou outro
motivo — são igualmente convidados a desempenhar esta função da
Igreja,103 celebrando alguma parte da Liturgia das Horas. Importa, de
fato, que aprendam acima de tudo a adorar a Deus Pai em espírito e
verdade104 na ação litúrgica, e se lembrem que, através do culto
público e da oração, eles podem atingir todos os homens e contribuir
muito para a salvação do mundo inteiro.105
Convém, finalmente, que a família, qual santuário
doméstico da Igreja, não se contente com a oração feita em comum,
mas, dentro das suas possibilidades, procure inserir-se mais
intimamente na Igreja, com a recitação dalguma parte da Liturgia das
Horas.106

b) Mandato de celebrar a Liturgia das Horas

28. A Liturgia das Horas está, de modo muito particular, confiada aos
ministros sagrados. E assim, cada um deles está obrigado a celebrá-
la, mesmo na ausência de povo, fazendo, claro está, as necessárias
adaptações. Efetivamente, os ministros sagrados são deputados pela
Igreja para celebrar a Liturgia das Horas, para que esta função de
toda a comunidade seja desempenhada ao menos através deles, de uma forma certa e constante, e se continue na Igreja,
ininterruptamente, a oração de Cristo.107
O Bispo é, de modo eminente, o representante visível de
Cristo e o sumo sacerdote do seu rebanho. Dele, em certo sentido,
deriva e depende a vida dos seus fiéis em Cristo.108 Portanto, deve
ser ele, entre os membros da sua Igreja, o primeiro na oração. E esta
sua oração, quando recita a Liturgia das Horas, é feita sempre em
nome da Igreja e a favor da Igreja que lhe está confiada.109
Os presbíteros, unidos ao Bispo e a todo o presbitério,
fazem também, dum modo especial, as vezes de Cristo sacerdote, 110
e participam da mesma função, orando por todo o povo a eles
confiado e pelo mundo inteiro.111
Todos estes desempenham o ministério do bom Pastor que
roga pelos seus para que tenham a vida e sejam consumados na
unidade.112 Na Liturgia das Horas, que a Igreja lhes propõe, não
somente encontrarão uma fonte de piedade e alimento para a oração
pessoal,113 mas também um meio de alimentar e desenvolver, pela
riqueza da contemplação, a sua ação pastoral e missionária, para
alegria de toda a Igreja de Deus.114
29. Por conseguinte, os bispos, os presbíteros e todos os outros
ministros sagrados, que receberam da Igreja o mandato (cf. n. 17)
de celebrar a Liturgia das Horas, estão obrigados a celebrar
diariamente o ciclo completo destas mesmas Horas, guardando,
quanto possível, a sua correspondência com a respectiva hora do dia.
Primeiramente, darão a devida importância àquelas Horas
que constituem, por assim dizer, o fulcro desta Liturgia, isto é,
Laudes e Vésperas. Estas Horas procurem não as omitir, a não ser
por motivo grave.
Serão também fiéis em celebrar o Ofício das Leituras, que
é por excelência uma celebração litúrgica da palavra de Deus. Por
esta forma se desempenharão cada dia do múnus que por título
peculiar lhes incumbe, que é o de acolher a palavra de Deus, a fim de
se tornarem mais perfeitos discípulos do Senhor e mais
profundamente saborearem as insondáveis riquezas de Cristo.115
Para melhor santificarem o dia, terão a peito rezar também
a Hora Média, bem como Completas, com as quais terminam o
«serviço divino» e se encomendam ao Senhor antes de recolher ao
leito.
30. É da máxima conveniência que os diáconos permanentes recitem
todos os dias pelo menos parte da Liturgia das Horas, conforme a
Conferência Episcopal determinar.116
31. a) Os cabidos das catedrais e das colegiadas recitarão no coro as
partes da Liturgia das Horas a que, seja pelo direito comum seja pelo
direito particular, estão obrigados. E cada um dos membros destes cabidos, além das Horas
que são obrigatórias para todos os ministros sagrados, está obrigado
a recitar individualmente aquelas Horas que são celebradas pelo
respectivo cabido.117
b) As comunidades religiosas obrigadas à Liturgia das
Horas, e cada um dos respectivos membros, celebrarão as Horas
segundo o que estiver determinado pelo seu direito particular, salvo o
prescrito no n. 29 para os que receberam as Ordens sacras.
As comunidades obrigadas ao coro, essas celebrarão
diariamente o ciclo integral das Horas.118 Fora do coro, os membros
(destas comunidades) recitarão as Horas em conformidade com o seu
direito particular, salvo sempre o prescrito no n. 29.
32. Às restantes comunidades religiosas e a cada um dos seus
membros, recomenda-se que, tanto quanto lho permitirem as
condições em que se encontram, celebrem algumas partes da Liturgia
das Horas, porque esta é a oração da Igreja, que faz de todos os que
andam dispersos um só coração e
uma só alma.119 Igual recomendação é feita aos leigos.
120

c) Estrutura da celebração

33. A Liturgia das Horas é regulada segundo leis próprias. Nela se
combinam, de uma forma particular, elementos comuns às outras
celebrações cristãs. Na sua estrutura geral, inclui sempre:
primeiramente o hino, depois a salmodia, a seguir uma leitura, longa
ou breve, da Sagrada Escritura, finalmente as preces.
Tanto na celebração comunitária como na recitação
individual, a estrutura essencial é sempre a mesma: diálogo entre
Deus e o homem. Todavia, a celebração comunitária manifesta mais
claramente a natureza eclesial da Liturgia das Horas. Pelas
aclamações, pelo diálogo, pela salmodia
alternada, etc., favorece também a participação ativa de todos,
segundo a condição de cada um. Além disso, respeita melhor as
diferentes formas de expressão.121 Consequentemente, sempre que
seja possível uma celebração comunitária, com a assistência e
participação ativa dos fiéis, esta deve preferir-se à celebração
individual e como que privada. 122 Além disso, na recitação coral e
comunitária, convém, quanto possível, que o Ofício seja cantado de
acordo com a natureza e função de cada uma das suas partes.
Deste modo se porá em prática a recomendação do
Apóstolo: «A palavra de Cristo permaneça em vós em toda a sua
riqueza, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com
toda a sabedoria; e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai
de todo o coração a Deus a vossa gratidão » (Col 3,16; cf. Ef 5,19-
20).
 Fonte: http://www.liturgiadashoras.org/IGLH.pdf

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