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Ano III Carta 17
Por:Kim Nataraja
Posto que John Main e Laurence Freeman são monges beneditinos é perfeitamente compreensível que seus ensinamentos tenham sido influenciados pela forma de vida preconizada pela Regra de São Bento. Entre os três votos beneditinos, que formam também o contexto de formação de um Oblato – Obediência, Conversão e Estabilidade - é aobediência que causa por vezes as dificuldades iniciais. Uma característica de nossa civilização ocidental, principalmente desde as duas Guerras Mundiais, é que desconfiamos da autoridade e consequentemente da obediência.
As autoridades têm deixado muito a desejar e, portanto, somos receosos em obedecer àqueles que detém a autoridade, quer seja a Igreja ou o Estado. Mas diz S.Bento no Capítulo 71 de sua Regra: “Não só ao Abade deve ser tributado por todos o bem da obediência, mas, da mesma forma, obedeçam também os irmãos uns aos outros; sabendo que por este caminho da obediência irão a Deus”.
Quando lemos este capítulo da Regra frequentemente o lemos sem atenção. Mas se assim o fazemos, deixamos de perceber uma questão importante. Já no Prólogo da Regra São Bento começa por enfatizar a obediência, que ali é traduzido do Latim em seu sentido original, a saber “ouvir”: “Escuta, filho, os preceitos do mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai, para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência.”
É a obediência, no sentido de ouvir de verdade com o ouvido do seu coração, que muda todo o impacto deste ensinamento. Ouvir de verdade,não apenas à abadessa ou ao prior, mas também uns aos outros é o fundamento da comunidade. Por causa disso, ouvirmos de verdade uns aos outros é um dom precioso que podemos oferecer uns aos outros. Como Simone Weil nos lembra, “Aqueles que são infelizes não têm necessidade de nada neste mundo a não ser de pessoas capazes de dar-lhes sua atenção.” Somos os guardiões de nossos irmãos e irmãs.
Quando ouvimos de verdade fazemos a conexão – como vimos na semana passada – de essência para essência , honramos uns aos outros; quando ouvimos de verdade os ensinamentos honramos os professores. A meditação é também uma forma de obediência, de ouvir de verdade com o ouvido do coração à voz interior – o Espírito – no centro de nosso ser, onde habita Cristo; e assim fazendo somos conduzidos ao mistério de Deus cujo significado São Paulo revela como: “Cristo em vós, a esperança da glória por vir”.
Esta é também a mensagem central de John Main no seu livro “A Palavra que Leva ao Silêncio”: “O mistério para o qual a meditação nos leva é um mistério pessoal, o mistério de nós mesmos, que se completa na pessoa de Cristo.” É essencialmente isso que dá à nossa meditação o tom exclusivamente cristão.
Mas isso não é o fim – somos levados a mergulhar com maior profundidade no mistério de Deus “Em Cristo residem ocultos todos os tesouros de Deus de sabedoria e conhecimento”. O resultado deste mergulho no mistério de Deus é a inteireza do ser. Nosso centro se desloca do ego para o nosso centro verdadeiro, o eu, o centro do nosso ser total, consciente ou inconsciente.
Nossa integralidade, portanto, não depende da obediência cega à autoridade e à sua necessidade de controle, não depende de seguirmos passivamente às regras ou regulamentos superficiais, mas depende de fato de ouvirmos profundamente tanto à voz da autoridade natural como à essência moral das regras e regulamentos.
Fonte:Escola Internacional
Comunidade Mundial para a Meditação Cristã
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